Crescer para cuidar: o desafio de sustentar a saúde pública com qualidade
Por trás de cada atendimento, existe uma estrutura complexa que vai muito além do que os olhos conseguem ver.
Por trás de cada atendimento, existe uma estrutura complexa
que vai muito além do que os olhos conseguem ver. No Hospital Beneficente Santa
Helena, essa realidade se traduz diariamente em números, responsabilidade e,
sobretudo, compromisso com a vida. Estamos há 60 anos nesta jornada.
Instituição filantrópica e referência em gestação de alto
risco para todo o estado de Mato Grosso, o hospital mantém as portas abertas 24
horas por dia para atendimentos em obstetrícia, acolhendo pacientes de todas as
regiões. Com 140 leitos destinados ao SUS, a unidade atua em diversas
especialidades, como obstetrícia, cirurgia geral digestiva, vascular, urologia,
ortopedia e alta complexidade em cardiologia.
A estrutura inclui ainda 10 leitos de UTI adulto, 18 leitos
de UTI neonatal, 4 leitos de cuidados intermediários neonatais e 3 leitos de
Unidade Canguru, sendo esses uma referência estadual no cuidado humanizado ao
recém-nascido.
Os números evidenciam a dimensão dessa atuação. Somente em
2025, foram registradas mais de 11 mil internações, sendo cerca de 8 mil na
área de obstetrícia. Do total de atendimentos, 60% são de pacientes de Cuiabá e
40% de outros municípios, o que reforça o papel regional e estratégico do
hospital dentro da rede pública de saúde.
Para sustentar essa operação, o Santa Helena conta com
aproximadamente 480 profissionais diretos, entre enfermeiros, técnicos,
fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, assistentes sociais, equipes
administrativas e diversas outras áreas essenciais. São profissionais que
garantem não apenas o funcionamento da instituição, mas o cumprimento rigoroso
das exigências legais, assistenciais e contratuais.
Além disso, o hospital investe continuamente em qualificação
da assistência, educação permanente, protocolos de segurança do paciente,
controle de infecção hospitalar e treinamentos técnicos. Um esforço constante
para assegurar qualidade, segurança e dignidade no atendimento aos usuários do SUS.
No entanto, por trás desse crescimento e da ampliação da
capacidade assistencial, existe um desafio cada vez mais evidente: o equilíbrio
financeiro. Atualmente, cerca de 90% da receita do hospital está vinculada ao
contrato com a Secretaria Municipal de Saúde, responsável pela gestão da
unidade.
Esse recurso precisa cobrir uma estrutura complexa, que
envolve folha de pagamento, honorários médicos, insumos, exames e a
disponibilidade de especialistas que, muitas vezes, não são contemplados
diretamente pela rede SUS, mas são indispensáveis para o atendimento integral,
como hematologistas, neurocirurgiões, urologistas, cirurgiões vasculares,
ortopedistas e especialistas pediátricos. Pode-se dizer que crescer e oferecer
um atendimento de qualidade demandam recursos.
Os números evidenciam o tamanho do descompasso. Desde 2016,
quando os valores de procedimentos como o parto normal (R$ 267,60) e a
cesariana (R$ 395,68) foram fixados, os custos da saúde cresceram de forma
acelerada. Apenas nos últimos anos, o VCMH (Variação de Custos
Médico-Hospitalares) acumulou altas expressivas, que representam um aumento
acumulado superior a 250% desde 2016. Já o IPCA (Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo), que mede a variação de custos da economia em geral, acumula
algo em torno de 80% a 100% neste período.
Na prática, isso significa que os custos hospitalares mais
do que dobraram ao longo dos últimos anos, enquanto os valores pagos pelos
procedimentos seguem exatamente os mesmos. É como se hoje fosse exigido do
hospital entregar mais, com uma estrutura muito mais cara, recebendo
praticamente metade do valor real necessário para sustentar esse atendimento. O
resultado é um cenário de desequilíbrio entre despesas e receitas, que
pressiona diretamente a sustentabilidade financeira da instituição.
O Hospital Beneficente Santa Helena tem crescido e ampliado
sua capacidade, qualificado sua assistência e fortalecido seu papel dentro da
rede pública de saúde. Mas esse crescimento traz consigo um desafio urgente,
que é garantir que a evolução da estrutura seja acompanhada por um modelo de
financiamento compatível com a realidade.
Discutir essa conta que não fecha não é apenas uma pauta
administrativa, mas uma necessidade estrutural para assegurar que continuemos
cumprindo nosso papel social com qualidade, segurança e responsabilidade.
Sustentar a saúde pública exige mais do que vocação, exige condições reais para
continuar cuidando de quem mais precisa.
O avanço da instituição e o compromisso com a qualidade
assistencial seguem firmes, no entanto, a continuidade desse trabalho depende
de condições que acompanhem essa evolução. Hoje, já se observa um risco
concreto de limitação na capacidade de atendimento ao longo do tempo, um
cenário que impacta diretamente a população que depende do SUS.
Dr. Marcelo Sandrin, Diretor do Hospital Santa Helena
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