IA: a um passo de fazer sua marca vender menos
Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir uma marca memorável.
Por Edson dos Santos, diretor da Agrand Comunicação e MT É
Negócio
Há pouco mais de dois anos, criar uma campanha exigia tempo,
pesquisa, estratégia e um time multidisciplinar. Hoje, basta abrir uma
plataforma de inteligência artificial, digitar um comando e, em poucos
segundos, surgem textos, vídeos, imagens e apresentações prontas para
publicação.
Como empresário da comunicação, vejo essa transformação com
entusiasmo. A inteligência artificial representa um dos maiores avanços
tecnológicos da nossa geração. Ela aumenta a produtividade, reduz tarefas
repetitivas e acelera processos criativos. Ignorar isso seria um erro.
Mas existe outro erro, talvez ainda maior: acreditar que a
IA substitui estratégia. Tenho observado um movimento preocupante. Nunca foi
tão fácil produzir conteúdo. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir
uma marca memorável.
Quando todos utilizam as mesmas ferramentas, alimentadas
pelos mesmos bancos de dados e pelos mesmos padrões de linguagem, o resultado
tende a ser parecido. As campanhas ficam bonitas, tecnicamente corretas, mas
sem personalidade. É como visitar uma feira em que todas as vitrines exibem
exatamente o mesmo produto.
Isso não é apenas uma percepção do mercado. Um estudo publicado
em 2024 no Journal of Retailing and Consumer Services demonstrou que
consumidores percebem marcas que utilizam conteúdo totalmente gerado por IA
como menos autênticas. O efeito diminui quando a tecnologia é usada como apoio
ao trabalho humano, e não como substituta da criação.
Essa conclusão reforça algo que sempre defendemos dentro das
agências de comunicação: marcas não vendem apenas produtos, elas vendem
confiança, e confiança não nasce de um prompt. Ela nasce da compreensão
profunda do comportamento humano, da cultura de uma empresa, da leitura do
mercado, do entendimento da concorrência, da capacidade de interpretar emoções,
contextos e oportunidades.
É exatamente aí que entram profissionais como estrategistas,
publicitários, designers, redatores e diretores de criação. A inteligência
artificial reorganiza informações existentes. Ela identifica padrões, sugere
caminhos, mas não participa de reuniões difíceis com clientes, não percebe o
silêncio de um consumidor durante uma pesquisa, não interpreta a emoção
presente em uma história real nem entende, por experiência própria, aquilo que
torna uma marca única.
Por isso, acredito que a criatividade continuará sendo um
diferencial competitivo. A própria McKinsey mostra que 65% das empresas já
utilizam inteligência artificial generativa regularmente e enxergam ganhos
importantes de produtividade. Ao mesmo tempo, a consultoria destaca que os
melhores resultados aparecem quando existe supervisão humana e integração da IA
aos processos estratégicos, e não sua utilização isolada.
Outro dado chama atenção. Um levantamento da Adobe revelou
que 93% dos consumidores consideram importante saber como um conteúdo foi
criado ou editado, demonstrando uma demanda crescente por transparência e
autenticidade na comunicação digital. Isso nos leva a uma reflexão simples. A
IA democratizou a execução, mas estratégia continua sendo um diferencial
humano.
Quem usar inteligência artificial apenas para produzir
volume provavelmente terá muito conteúdo e pouca conexão. Quem utilizar a
tecnologia para potencializar boas ideias, pesquisas consistentes e
posicionamentos autênticos terá uma vantagem competitiva difícil de copiar.
Na comunicação, a ferramenta nunca foi o maior ativo. O
maior ativo sempre foi a capacidade de transformar informação em relacionamento,
e, até onde sabemos, nenhuma inteligência artificial aprendeu a fazer isso
sozinha.
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