Ser idoso hoje: a velhice já não cabe nos antigos retratos
Mas, tal como o mundo muda, a velhice também mudou.
Quando eu era mais jovem, a imagem que tínhamos de uma
pessoa idosa era muito diferente da que encontramos hoje. Envelhecer parecia
significar chegar a uma fase de recolhimento. A aposentadoria representava,
muitas vezes, o encerramento da vida profissional. Os filhos já estavam criados
e era esperado que aquela pessoa diminuísse o ritmo e ocupasse um lugar mais
reservado na família e na sociedade.
Mas, tal como o mundo muda, a velhice também mudou. Hoje
encontramos pessoas com mais de 60, como eu, de 70 ou 80 anos trabalhando,
empreendendo, viajando, estudando, iniciando novos relacionamentos, praticando
atividades físicas, usando redes sociais e fazendo planos para os próximos anos.
Não significa que as limitações deixaram de existir, mas significa que viver
mais ampliou também as possibilidades do que podemos fazer com esses anos.
A própria tecnologia talvez seja uma das imagens mais claras
dessa transformação. Em 2025, segundo dados do IBGE, 74,5% dos brasileiros com
60 anos ou mais já utilizavam a internet. É um percentual ainda inferior ao das
demais faixas etárias, mas que cresce rapidamente. A ideia de que idoso não
sabe usar as tecnologias está ficando defasada!
Mas há uma questão que considero ainda mais importante, não
existe uma única maneira de ser idoso hoje. Enquanto alguns chegam à maturidade
com independência financeira, saúde e uma extensa rede de apoio, outros
envelhecem enfrentando doenças, solidão, dificuldades econômicas ou dependência
da família e dos serviços públicos. Há quem possa escolher continuar
trabalhando e há quem precise trabalhar. Há quem descubra novos projetos depois
dos 60 e há quem ainda lute para ter garantidos direitos básicos.
Por isso, quando falamos sobre a nova velhice, precisamos
tomar cuidado para não substituir um estereótipo por outro. Se antes o idoso
era retratado apenas como alguém frágil e dependente, também seria injusto
imaginar que toda pessoa idosa precisa ser extremamente ativa, conectada,
produtiva e cheia de novos projetos. Cada pessoa envelhece a partir da história
que construiu e, principalmente, das condições que encontrou ao longo dessa
história.
O Brasil também precisa olhar com mais atenção para essa
transformação. Somos hoje um país com cerca de 36 milhões de pessoas com 60
anos ou mais, aproximadamente 17% da população. Não estamos falando, portanto,
de uma realidade distante ou de uma pequena parcela da sociedade. Estamos
falando de uma mudança profunda na maneira como nossas famílias, cidades,
serviços de saúde, relações de trabalho e políticas públicas precisam ser
pensados.
Também avançamos na compreensão de que envelhecer com
dignidade envolve muito mais do que assistência. Envolve autonomia,
participação social, acesso à cultura, trabalho, lazer, informação, convivência
e respeito às escolhas individuais, direitos esses que estão previstos no
Estatuto da Pessoa Idosa. Talvez essa seja, para mim, uma das maiores mudanças
do nosso tempo, começamos a compreender que envelhecer não significa deixar de
participar da vida.
Uma pessoa não perde seus desejos, opiniões, projetos ou
capacidade de contribuir simplesmente porque completou 60 ou mais. A idade
modifica o corpo, traz experiências e pode impor limites, mas não apaga a individualidade.
Precisamos abandonar a ideia de uma velhice padronizada. Existem muitas
velhices acontecendo ao mesmo tempo, dentro de um mesmo país, de uma mesma
cidade e, às vezes, dentro de uma mesma família.
E se viver mais é uma das grandes conquistas da nossa época,
nosso próximo desafio talvez seja ainda maior, construir uma sociedade
preparada não apenas para acrescentar anos à vida, mas para reconhecer que há
vida, escolhas e possibilidades em todos esses anos.
Sonia Mazetto é gestora de Potencial Humano, Terapeuta
Integrativa, Fonoaudióloga e Palestrante
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