“Será que o produtor quer intoxicar o consumidor?”, livro desmistifica a polêmica dos agroquímicos

Zootecnista escreve livros de educação ambiental mostrando a importância do agronegócio


Por Adriele Cristina Rodrigues (jornalista)

Esta história vai muito além de um livro de contos de fadas. Tudo começa com uma mãe que percebeu que seria preciso educar seus filhos para além do senso comum e do que é veiculado na grande mídia. Depois de escrever três livros infantis sobre a maternidade e a rotina de ser mãe, a professora de zootecnia da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), Helen Fernanda Gomes, começa a multiplicar conhecimento por meio da literatura. A última edição lançada por ela se chama: “Será que o produtor quer intoxicar o consumidor?”.

A professora entendeu que a sua vocação para escrever histórias poderia mudar o entendimento das crianças sobre a produção, o agronegócio e o consumo de carne. Inclusive, o último lançamento traz a polêmica dos agroquímicos, mostrando a evolução que ocorreu no setor nos últimos anos para garantir a produtividade e segurança, tanto ambiental quanto alimentar.

A zootecnista ressalta que viu a importância de abordar a questão dos agroquímicos porque muitas pessoas têm deixado de consumir alimentos de origem vegetal por falta de conhecimento, achando que está sendo intoxicado pelo produtor rural. “É preciso mostrar que não devemos ter medo de comer comida de verdade, que é muito mais saudável do que os industrializados. São tantas evoluções tecnológicas no campo que o risco real está é na má alimentação”, aponta Helen.

A Gestora de Projetos no Setor de Desenvolvimento (PMD Pro) e membro da Sociedade Brasileira de Educomunicação, Ticiana Oliveira, declara que livros educativos como os escritos pela Helen são importantes, especialmente considerando a posição do Brasil como celeiro do mundo.

“Ao desmistificar narrativas que tendem a gerar preconceitos sobre o setor agropecuário, as obras contribuem diretamente para formar uma opinião pública mais informada e equilibrada. O esclarecimento promovido ajuda na conscientização dos consumidores e também fortalece o reconhecimento do trabalho dedicado e responsável realizado pelos produtores rurais brasileiros”, resume a Gestora.

É importante destacar que o Brasil é referência global em práticas sustentáveis no campo, como mostram os dados do Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, Embrapa e do Cadastro Ambiental Rural de 2023, que indicam que cerca de 25,6% das áreas rurais brasileiras são dedicadas à preservação de vegetação nativa. Em comparação com outros países, como os Estados Unidos, que preservam aproximadamente 15% com a meta de alcançar 30% até 2030, o país está adiantado nesse processo.

As obras produzidas pela escritora Helen são voltadas para uma faixa etária de 10 anos de idade, mas que acabam sendo consumidas por alunos na pré-escola, professores e até universidades. A escola Educar Instituto de Ensino, voltada para crianças matriculadas no ensino fundamental, foi uma das instituições de Rondonópolis que recebeu a autora para palestrar sobre o livro. Na oportunidade, cada criança ainda ganhou um exemplar.

“Os livros são um verdadeiro marco na literatura de Rondonópolis. Para além de incentivar os alunos com a leitura, ela trata de assuntos urgentes, com responsabilidade científica, ludicidade e linguagem adequada para a infância. A maioria dos livros tem como projeto desmistificar muitas informações importantes e que fazem parte da rotina das crianças e famílias” destaca a diretora da Educar Instituto de Ensino, Aline Ribeiro.

Em edições anteriores, a autora conseguiu o apoio de empresas patrocinadoras para produção dos exemplares e já foram mais de 20 mil livros distribuídos pelo estado. A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) foi uma das instituições que apoiou a produção dos livros.

"É com satisfação que valorizamos a iniciativa da professora Helen, que teve a sensibilidade e a coragem de levar, por meio da literatura infantil, informações verdadeiras e acessíveis sobre o consumo de carne e a realidade do agro brasileiro às crianças das escolas públicas. Ensinar desde cedo sobre a origem dos alimentos, sobre a importância da pecuária e sobre como o campo trabalha com responsabilidade e sustentabilidade é fundamental para formar cidadãos conscientes”, afirma o presidente da Acrimat Oswaldo Pereira Ribeiro Júnior.

O presidente ainda reitera o quanto a atitude da professora é importante em um tempo em que tantas inverdades circulam, principalmente nas redes sociais. Segundo ele, iniciativas como essa ajudam a desmistificar mitos, aproximar o campo da cidade e mostrar que o agro tem um papel essencial na economia, na cultura e na alimentação do país.

Tudo começou pela carne

Helen começou a escrever livros por conta dos filhos e a maternidade a mostrou uma visão diferente da realidade, inclusive da sua profissão. Zootecnista de formação, Mestre em Qualidade da Carne e Doutora em Nutrição Animal, ela observou muita coisa equivocada sendo veiculada incentivando as pessoas a pararem de consumir carne.

Foi com propriedade de fala que ela identificou o primeiro tema do seu livro, desmistificar o consumo de carne. Com a ideia surgiu a personagem, que é a Anninha, em homenagem à sua avó. Depois de definida a personagem, veio a construção do enredo, que seria uma história que mostre às pessoas que a proteína animal não é tão facilmente substituível na dieta humana, como muito se propaga por aí.

Surge assim a primeira edição: “Será que os humanos precisam comer carne?”. Na obra, Anninha questiona os pais sobre o que havia visto nas redes sociais, que comer carne prejudica o meio ambiente. Durante a história, os pais da Anninha a ajuda a entender um pouco sobre o assunto, explicando que o ser humano é um animal onívoro e que precisa de todos os cinco nutrientes para manter a saúde.

Com o sucesso do primeiro livro, Helen lança o segundo título: “Será que a vaca quer acabar com o planeta?”, em que explica que o animal é ruminante, possuindo micro-organismos que ajudam na fermentação e digestão do vegetal. Diferente de nós, humanos, que dependemos de todos os grupos de nutrientes na alimentação para que ela seja saudável.

Agora a autora está em busca de mais parceiros para o projeto, para que os livros possam chegar a mais escolas. “Distribuir esse material e conversar com as crianças sobre esses assuntos é o meu trabalho. Quando ouvimos uma blogueira famosa falando uma informação equivocada, muitos ficam se questionando. Então se nós, que somos da área, não levarmos essa informação correta para as pessoas, não tem como desmistificarmos esses assuntos. Ou seja, é preciso levar informação verdadeira para quem precisa dela”, pontua a zootecnista.

As instituições e empresas interessadas em conhecerem sobre as produções e mesmo fechar parcerias, podem entrar em contato com a Helen por meio do Instagram @helen.fernanda.gomes.

Ensinar desde cedo é criar cidadãos críticos

Ainda há muito preconceito quando se fala em educação ambiental e agronegócio, e muitas vezes as palavras são vistas como opostas, no entanto, a Educomunicadora Ticiana acredita que é preciso ver o assunto sob uma via de mão dupla. Segundo a pesquisadora, de um lado ainda há os produtores que ignoram as boas práticas ambientais, mas esses são a minoria.

“A grande maioria dos produtores já adota práticas ambientais adequadas, até porque precisam cumprir exigências rigorosas para exportar e comercializar seus produtos. Por isso, acredito que a solução está na informação correta e na conscientização e aí a educação ambiental desempenha um papel fundamental ao promover uma visão realista e esclarecida sobre as práticas ambientais adotadas na agricultura brasileira. Especialmente no contexto da produção em larga escala, é essencial quebrar mitos e preconceitos ainda persistentes sobre o setor”, afirma Ticiana.

A preocupação em educar o futuro ultrapassa as barreiras das escolas e chega às instituições. A Aprosoja Mato Grosso, por exemplo, desenvolve o projeto Futuro em Campo, que leva crianças do ensino fundamental para conhecerem de perto a rotina e as práticas de uma fazenda. Em cada edição participam entre 200 e 300 estudantes, pensada especialmente para formar e conscientizar as próximas gerações.

Atualmente, a entidade realiza, em média, duas edições por mês, cada uma em uma cidade diferente do estado, ampliando o alcance e o impacto do projeto em diversas regiões de Mato Grosso. “Acreditamos que, sem informação desde cedo, corremos o risco de perpetuar a desinformação que vemos hoje sobre o campo. Ao abrir as porteiras das fazendas com todos os cuidados necessários, mostramos à sociedade a responsabilidade que o produtor rural já carrega no seu dia a dia”, pontua o Vice-presidente Oeste da Aprosoja Mato Grosso, Gilson Antunes de Melo.

Iniciativas como as da Professora Helen e da Aprosoja visam mostrar para os cidadãos, principalmente os que estão em formação, o impacto positivo que o agro tem. Educar para comunicar essa realidade é essencial para que produtores rurais sejam reconhecidos adequadamente por suas contribuições à sustentabilidade global e findar de vez com o preconceito que ainda perdura na sociedade.

“É muito fácil criticar e se deixar manipular por narrativas contrárias ao agronegócio morando em grandes metrópoles, distante da realidade rural. Sempre faço uma brincadeira com quem é crítico ferrenho: tente manter uma horta em sua casa ou prédio e faça ela sobreviver às intempéries climáticas, pragas e ataques de insetos por dois anos consecutivos. Se conseguir, aí sim você ganha o direito de falar algo sobre métodos de produção agrícola”, finaliza Ticiana.

 

 

 

 

 


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