Atenção especializada ao idoso: porque precisamos mudar o modelo de cuidado em saúde
A realidade é que vivenciamos um envelhecimento populacional em Mato Grosso, o que exige urgência e inovação no modelo de atenção à saúde
Sou médico há mais de 50 anos e acompanhei, ao longo da
minha trajetória, transformações profundas na medicina. Tenho quase três
décadas de atuação em Cuiabá, e essa vivência me permite afirmar, com
segurança: a medicina evoluiu tecnologicamente, mas o sistema de saúde,
especialmente no atendimento ao idoso, precisa urgentemente ser reorganizado.
Sempre acreditei que informação em saúde faz diferença, e
isso independe de viés político. A saúde precisa estar permanentemente em foco,
sendo avaliada, corrigida e aprimorada em favor da população. Existem excessos
que precisam ser cortados e realidades que precisam ser melhoradas. Foi com
esse olhar que construímos propostas voltadas não ao aumento de gastos, mas ao
uso mais inteligente dos recursos que já existem, e esses não são poucos.
A realidade é que vivenciamos um envelhecimento populacional
em Mato Grosso, o que exige urgência e inovação no modelo de atenção à saúde. A
densidade de pessoas com mais de 60 anos apresentou crescimento de 70% entre
2010 e 2022, segundo o Censo IBGE, passando a representar cerca de 11% da
população estadual.
Esse envelhecimento acentuado traz um novo perfil
epidemiológico, com aumento de doenças crônicas, e exige disposição
diferenciada em estruturas de acolhimento. Ao longo dos anos, identifiquei que
uma parte significativa da sobrecarga das unidades de pronto atendimento e dos
prontos-socorros poderia ser evitada. Estimamos que cerca de 30% dos
atendimentos de urgência e emergência ocorrem porque o paciente, especialmente
o idoso, não foi atendido no momento correto.
Criamos uma cultura em que tudo virou urgência. Emergência é
emergência, urgência é urgência e atendimento eletivo é eletivo. Essa distinção
se perdeu, especialmente após a ampliação das Unidades de Pronto Atendimento
(UPAs). Não critico a existência dessas unidades, aliás, elas são fundamentais,
mas quando o atendimento eletivo falha, a população recorre ao pronto
atendimento, o que impacta todo o sistema.
Quero deixar claro que, dentro desse cenário, o idoso não precisa
de privilégios, mas de um cuidado adequado às suas necessidades. Hoje, vemos
idosos internados ao lado de pacientes com pneumonia ou outras doenças
infecciosas, em ambientes que não foram pensados para eles. As equipes, muitas
vezes, não são treinadas para lidar com as particularidades do envelhecimento.
Os dados mostram que apenas 27% dos municípios do estado contam
com Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) e o único abrigo
público da capital, Abrigo Bom Jesus, enfrenta fila de espera. Não se trata
apenas de geriatria, trata-se de organização. A implantação de um Plano
Estadual de Atenção Especializada ao Idoso, com profissionais capacitados e
fluxos bem definidos.
Falando em miúdos, os idosos precisam de um espaço para atendimento,
com rotinas diferenciadas para prevenção e controle de doenças crônicas, como
hipertensão, diabetes e AVC. Essa “unidade”, minimizaria os impactos no
tratamento, permitiria mais conforto ao paciente, maior eficiência no cuidado
e, principalmente, uma redução expressiva das internações desnecessárias.
Na verdade, com poucas mudanças é possível reduzir em até
30% a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência, especialmente em
Cuiabá, que é um polo atrator de atendimentos em saúde. Essa ação representaria
uma melhoria na qualidade de vida dos idosos com atenção personalizada e
humanizada, redução de internações desnecessárias e otimização dos recursos do
SUS e alívio imediato para unidades de emergência, possibilitando atendimento mais
eficiente para adultos e crianças.
O fato é: Mato Grosso estará preparado para desafios
demográficos? Projeções apontam que, até 2045, os idosos representarão 30% da
população. Então é preciso priorizar, o mais rápido possível, iniciativas que
não aumentam os gastos, mas potencializam o uso inteligente dos recursos
existentes.
Aproveito para deixar uma reflexão muito importante, todos
nós queremos chegar à velhice. E o que estamos plantando hoje na saúde do idoso
é exatamente o que colheremos amanhã. Investir em um plano estruturado de
atenção especializada ao idoso não é apenas uma decisão técnica ou
administrativa, é um compromisso ético com o futuro da nossa sociedade.
Dr. Marcelo Sandrin, médico intensivista, pneumologista,
cardiologista e clínico.
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